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EUA anunciam trégua energética entre Rússia e Ucrânia - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Além do combate no front, Rússia e Ucrânia travam há anos uma segunda guerra, dirigida contra as instalações que produzem e distribuem energia nos dois países. De um lado, a Rússia bombardeia usinas, redes de transmissão e instalações de gás da Ucrânia, deixando civis sem luz, calefação e água corrente, estratégia que autoridades ucranianas chamam de "transformar o inverno em arma", segundo a agência AP. Do outro, a Ucrânia ataca com drones de fabricação própria refinarias e complexos petrolíferos em território russo, com o argumento de que a receita do petróleo financia a guerra.

Essa guerra paralela chega ao bolso de quem está longe dela. Refinaria atingida é diesel que deixa de ser produzido, e diesel é o combustível do transporte de carga, da agricultura e de boa parte da indústria. Um "cessar-fogo energético" seria um acordo para parar esses ataques específicos, sem encerrar a guerra.

Foi exatamente isso que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou no domingo (11), em uma publicação na sua rede social. E foi contestado em poucas horas.

O anúncio no Truth Social e a surpresa de Kyiv

"Com efeito imediato, há um CESSAR-FOGO ENERGÉTICO na guerra entre Rússia e Ucrânia. As duas partes concordaram. Não o quebrem!", escreveu Trump, sem dar detalhes sobre termos, verificação ou como o entendimento foi alcançado. Procurada pela CNBC, a Casa Branca remeteu à própria publicação.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse ao site Axios que a trégua era "novidade" para ele, acrescentando que Kyiv aceitaria se Moscou também aceitasse e pedindo que os americanos informassem quando o acordo entraria em vigor. No dia seguinte, em videoconferência no Fórum de Segurança de Varsóvia, afirmou que soube do anúncio pela imprensa e supôs que a equipe americana tivesse tratado do assunto diretamente com os russos.

Horas antes do anúncio, em entrevista à ABC News, Zelensky já havia dito que a Ucrânia pararia de atacar refinarias russas se a Rússia parasse de atacar o sistema elétrico ucraniano. Não é a primeira vez que a sequência se repete: em 14 de setembro, segundo a AP, Trump afirmou em rede social que os dois países haviam concordado em não atingir a infraestrutura energética um do outro, também sem detalhes, e nada resultou daquilo.

A trégua que nasceu rachada

Logo depois da publicação, segundo Zelensky, a Rússia atingiu uma usina térmica em Kharkiv, no nordeste do país, e uma usina em Kyiv foi atingida por um drone, provocando cortes de energia na capital. Durante a madrugada seguinte, a estatal ucraniana Naftogaz informou que instalações de produção de gás na região de Kharkiv foram atacadas por um drone a jato, com incêndio e danos a equipamentos críticos, sem feridos. Na segunda-feira (12), Zelensky afirmou que só naquele dia seis instalações energéticas haviam sido atacadas e que, se a Rússia não aderir à trégua, a Ucrânia "vai responder".

Moscou não confirmou acordo nenhum. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que "os contatos continuam" e que informará quando houver algo a dizer, recusando-se a comentar se um eventual entendimento se limitaria a refinarias. Peskov também rejeitou a ideia, lançada por Zelensky, de uma trégua total de 60 dias: segundo ele, a Rússia não quer cessar-fogo temporário, e sim "paz de longo prazo". O chanceler Sergei Lavrov afirmou em vídeo que Zelensky não merecia "tal trégua".

Entre os europeus, a leitura foi de ceticismo. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse a jornalistas não ter notado "nenhum cessar-fogo energético do lado russo" nas últimas 48 horas. A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou que o bloco saudará a trégua "quando ela se sustentar". No mesmo dia, a UE aprovou quase 1.600 novas inclusões em sua lista de sanções ligadas ao complexo militar-industrial russo, o maior acréscimo desde o início da guerra, segundo Kallas.

O pano de fundo: o acordo de diesel

O anúncio da trégua veio dois dias depois de outro, mais controverso. Na sexta-feira (9), após telefonema com Vladimir Putin, Trump disse ter fechado um acordo pelo qual a Rússia forneceria imediatamente mais de 300 mil toneladas de diesel ao mercado, seguidas de 500 mil toneladas em novembro e novos volumes depois disso. O Tesouro americano autorizou alívio temporário de sanções para viabilizar os embarques.

O argumento apresentado por Trump e por sua administração é econômico e explícito: os preços do diesel nos Estados Unidos bateram recorde, chegando a US$ 6,52 por galão em setembro, segundo a Al Jazeera, com impacto direto sobre agricultores, pecuaristas e transportadoras. Trump afirma que os ataques ucranianos a refinarias retiraram capacidade de um mercado de combustíveis já apertado e disse que a liberação do diesel russo ajudaria a baixar preços globais e domésticos antes das eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro. Analistas ouvidos pela Al Jazeera endossam parte do diagnóstico: os ataques a refinarias e instalações energéticas encareceram transporte, agricultura e negócios, com a conta repassada ao consumidor, e uma trégua genuína poderia proteger a oferta às vésperas do inverno. Sob pressão de Trump, o G7 concordou na semana passada em liberar 100 milhões de barris de reservas emergenciais de petróleo e diesel.

Do outro lado, agências como a AP registram que a alta dos preços decorre em boa medida da guerra liderada pelos EUA contra o Irã, que elevou o preço de todos os derivados de petróleo. No Congresso americano, sete senadores, quatro deles republicanos, divulgaram comunicado pedindo que a administração "reverta o curso": lembraram que o Congresso proibiu explicitamente a importação de energia russa em 2022 e afirmaram que permitir diesel russo nos EUA contraria essa lei. O republicano Thom Tillis, um dos signatários, disse à NBC News que o acordo "certamente" colocará vidas americanas em risco. Zelensky classificou a decisão como "fraca" e disse que ela geraria bilhões em receita adicional para Moscou.

Na mesma sequência de atritos, Trump afirmou no sábado (10) que a Ucrânia deveria "arranjar um novo líder capaz de fechar um acordo". Zelensky respondeu que cabe aos ucranianos escolher quem os governa e condicionou qualquer eleição a uma trégua total de 60 dias, lembrando que o país está sob lei marcial desde 2022 e que a Constituição suspende eleições nesse período.

O que os preços fizeram

O mercado reagiu nos dois sentidos, e em poucas horas. Na segunda-feira, o Brent, referência internacional, recuou para cerca de US$ 103 o barril após o anúncio de Donald Trump de uma trégua energética entre Rússia e Ucrânia, enquanto o WTI americano era negociado perto de US$ 91. Ainda no mesmo dia, depois das declarações de Zelensky acusando a Rússia de violar a trégua com ataques a instalações de gás, a CNBC registrou que os preços viraram para o campo positivo, com Brent e WTI subindo cerca de 2%.

Os níveis seguem altos por razões que nada têm a ver com a Ucrânia. A guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, e as interrupções no Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial, mantêm o mercado tensionado. No sábado, um ataque dos houthis ao aeroporto internacional de Riad deixou 12 mortos. E cerca de 1,2 milhão de barris por dia de produção no Golfo do México seguiam paralisados por causa do furacão Isaias.

Sobre o acordo de diesel em si, o ex-chefe de petróleo da Agência Internacional de Energia, Neil Atkinson, disse à CNBC que os volumes discutidos são pequenos e que o entendimento "não move o mercado de forma significativa".

O que fazer com essa informação

O primeiro ponto é tratar o anúncio pelo que ele é até agora: uma declaração unilateral em rede social, sem texto, sem prazo, sem mecanismo de verificação e sem confirmação oficial de Moscou, que fala apenas em "contatos em curso". Enquanto o Kremlin não confirmar, qualquer manchete sobre trégua energética continua sendo promessa, não fato.

Quatro coisas são verificáveis nos próximos dias. A primeira é se o Kremlin passa da fórmula "os contatos continuam" para uma confirmação formal, e se ela cobre apenas refinarias ou também usinas e redes elétricas, distinção que Peskov se recusou a esclarecer. A segunda é se os ataques param dos dois lados: do lado ucraniano, uma fonte próxima a Zelensky disse à CNN que Kyiv suspendeu os ataques a refinarias russas enquanto aguarda esclarecimentos dos EUA, e Zelensky já avisou que retomará as respostas se a Rússia não aderir. A terceira é a reação do Senado americano à autorização temporária para a entrada de diesel russo, com um grupo bipartidário pedindo reversão. A quarta é o comportamento dos preços, lembrando que eles respondem simultaneamente ao Oriente Médio, ao clima no Golfo do México e à guerra na Ucrânia, e não a um anúncio isolado.

Para quem compra combustível, aluga frete ou vende produto transportado por caminhão, a lição prática é que o custo do diesel hoje depende de pelo menos três frentes distintas, e que movimentos de um ou dois pontos percentuais no barril podem se inverter no mesmo dia conforme as violações se confirmam.

Quando você vê um anúncio de acordo internacional circulando, o que você costuma checar antes de ajustar um preço, um contrato ou um planejamento: a declaração de quem anunciou, ou a confirmação das partes que teriam concordado?

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